PROTOCOLO MAMP: Uma ponte entre a Máscara Facial e o Protocolo BAMP, quando a maxila precisa de atenção.
O MAMP (Miniscrew-Anchored Maxillary Protraction) combina expansão e protração maxilar com ancoragem em mini-implantes — e ocupa exatamente a janela em que a máscara facial já perde rendimento.

Escrito por
Prof. Dr. Alexandre Magno dos Santos
Ortodontista · Mestre, Doutor e Professor — Consultor científico da Visiortho

Há algo silencioso na forma como uma criança esconde o queixo. Não é timidez — é a consciência de que o rosto não acompanhou o que ela esperava. Um perfil côncavo, uma mordida cruzada anterior, aquele trespasse negativo que faz os dentes superiores recuarem atrás dos inferiores. Para o ortodontista, é um diagnóstico clássico: Classe III com deficiência maxilar. Para o paciente, é uma frase que se repete no espelho todos os dias.
O protocolo MAMP chega para mudar essa narrativa.
O Problema Clínico: Uma Maxila que Ficou Para Trás

A má oclusão de Classe III esquelética, caracterizada por retrusão maxilar e/ou prognatismo mandibular, é uma das condições que mais impacta a estética facial e a autoestima de pacientes em crescimento. A deficiência de maxila frequentemente vem acompanhada de mordida cruzada — tanto anterior quanto posterior — e de um perfil facial que denuncia, antes de qualquer palavra, o descompasso entre as bases ósseas.

O desafio clínico é conhecido: como mover uma maxila que não cresceu o suficiente, em um paciente que ainda está crescendo, sem depender de cooperação com aparelhos extraorais e sem causar efeitos colaterais indesejados nos dentes?

A história da ortopedia maxilar nos deu caminhos importantes. A máscara facial foi, por décadas, o padrão-ouro para a protração maxilar. Funciona? Sim — mas com limitações. Sua eficácia depende de cooperação intensa do paciente (uso de 12 a 14 horas por dia), pode produzir efeitos dentários indesejados como proclinação dos incisivos superiores e mesialização dos molares, e sua janela de efetividade é restrita à dentição mista precoce. Quando o paciente chega à dentição mista tardia ou permanente, a máscara facial já perde boa parte de sua força.
Foi nesse cenário que surgiram as abordagens com ancoragem esquelética.
MAMP: O Que É e Como Funciona

O protocolo MAMP — Miniscrew-Anchored Maxillary Protraction (Protração Maxilar Ancorada em Mini-implantes) — é uma evolução baseada na terapia BAMP (Bone-Anchored Maxillary Protraction). A grande inovação do MAMP é substituir as mini-placas óssea por mini-implantes (miniscrews) como ancoragem e incorporar a expansão rápida da maxila ao protocolo.
O que torna o MAMP especialmente interessante é sua elegância biomecânica. Em vez de quatro mini-placas cirurgicamente instaladas (duas na crista infrazigomática e duas na mandíbula), o protocolo utiliza:
- Um expansor do tipo Hybrid Hyrax (MARPE) na maxila, ancorado em mini-implantes palatinos — ou seja, a expansão esquelética, graças à ancoragem.
- Dois mini-implantes mandibulares, instalados bilateralmente na região distal dos caninos permanentes.
- Elásticos de Classe III em tempo integral, conectando o expansor maxilar aos mini-implantes mandibulares.



O resultado é uma força de tração que atua diretamente sobre a maxila — simultaneamente à expansão — promovendo avanço sagital e abertura transversal em um único protocolo integrado. Não é preciso escolher entre expandir ou protrair: o MAMP faz os dois ao mesmo tempo.

A Janela de Tratamento: Quando o MAMP Brilha

Aqui mora um ponto fundamental que diferencia o MAMP de outras abordagens. A literatura é clara:
A máscara facial tem sua melhor eficácia na dentição mista precoce. O MAMP, por sua vez, é indicado para a dentição mista tardia ou permanente inicial — justamente a fase em que a máscara facial perde rendimento.
Isso significa que o MAMP não substitui a máscara facial. As duas técnicas ocupam janelas distintas, complementares. O MAMP exige a erupção do canino inferior permanente para a instalação dos mini-implantes mandibulares, o que naturalmente o posiciona em um momento mais tardio do crescimento.
Essa distinção é crucial para o planejamento clínico: um paciente que chega aos 10-11 anos com Classe III e deficiência maxilar pode ter perdido a janela ideal da máscara facial, mas encontra no MAMP uma alternativa de ancoragem esquelética altamente efetiva.
A Evidência: O Que a Ciência Mostra
Os estudos sobre o MAMP são recentes, mas robustos.
O Estudo Pioneiro
O protocolo MAMP foi descrito clinicamente por Miranda et al. (2020), em artigo publicado no Journal of Orthodontics. O estudo relatou uma série de casos de dois pacientes do sexo masculino com má oclusão de Classe III, tratados com expansor híbrido e dois mini-implantes na região anterior da mandíbula ancorando elásticos de Classe III. Os resultados mostraram aumento significativo no comprimento efetivo da maxila, no ângulo ANB e no Wits appraisal, com efeitos dentários leves.
Vale destacar que entre os autores deste estudo está o Dr. Alexandre Magno dos Santos, ortodontista, professor e responsável pela validação científica da Visiortho, e a professora Daniela Garib, chefe do departamento de ortodontia da FOB-USP — o que confere ao protocolo uma conexão direta com a excelência acadêmica brasileira, especialmente do Departamento de Ortodontia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP).
O Primeiro ensaio clínico randomizado (RCT)
O primeiro ensaio clínico randomizado sobre o MAMP foi conduzido por Kamel et al. (2023), publicado no Progress in Orthodontics. O estudo recrutou 40 pacientes em crescimento com má oclusão de Classe III e maxila retrusiva, alocados em grupo tratado (n=17) e grupo controle não tratado (n=13). O tempo médio de tratamento foi de 11,9 meses.
Os resultados foram expressivos:
- Avanço maxilar (A-VR): 4,34 mm no grupo tratado vs. 0,87 mm no controle (P<0,001) — um avanço cinco vezes maior que o crescimento natural.
- ANB: melhora de 5,5° no tratado vs. -0,61° no controle.
- Wits: melhora de 4,9 mm no tratado vs. 0,28 mm no controle.
- Overjet: melhora de 5,9 mm.
- Controle vertical: sem aumento significativo do plano mandibular — uma vantagem importante em casos de padrão facial vertical.
O estudo concluiu que o MAMP promove avanço maxilar significativo com bom controle sagital e vertical do crescimento mandibular.
MAMP vs. BAMP: comparação tridimensional
Um estudo comparativo conduzido também por Miranda et al. (2025), publicado no European Journal of Orthodontics, comparou os resultados tridimensionais (tomografias CBCT) do MAMP e do BAMP. O grupo MAMP contou com 22 pacientes (idade média de 10,9 anos) e o grupo BAMP com 24 pacientes (idade média de 11,6 anos).
A conclusão foi que ambas as terapias são adequadas para tratar pacientes em crescimento com Classe III. O BAMP produziu maior avanço maxilar, enquanto o MAMP mostrou maior aumento transversal da cavidade nasal. A correção do overjet ocorreu em 81,8% dos casos no grupo MAMP e 87,5% no BAMP — taxas altas em ambos os grupos.
Uma vantagem prática do MAMP sobre o BAMP: a instalação de mini-implantes é consideravelmente menos invasiva que a colocação cirúrgica de mini-placas, o que torna o protocolo mais acessível e aceitável para o paciente e o ortodontista clínico.
Outro RCT importante
Um ensaio clínico randomizado publicado no American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics (2021) comparou o MAMP com expansor híbrido versus o MAMP com expansor Hyrax convencional. A correção do overjet foi de 94,4% no grupo com expansor híbrido (MARPE) versus 71,4% no grupo com Hyrax convencional — reforçando que a ancoragem esquelética palatina do expansor é um componente-chave do sucesso do protocolo.
Impacto Humano: O Rosto Por Trás da Cefalometria
Uma revisão sistemática publicada no Progress in Orthodontics (2020) investigou a relação entre má oclusão e bullying, e os achados reforçam o que todo ortodontista sabe por intuição: crianças e adolescentes com alterações dentofaciais visíveis e extremas são alvos mais frequentes de bullying. Embora o estudo destaque condições como o overjet maxilar acentuado e espaços entre os dentes como alvos fortíssimos, sabemos que qualquer descompasso severo nas bases ósseas — como a má oclusão de Classe III, mordida cruzada e seu perfil côncavo — afeta diretamente a autoimagem e expõe o paciente a vulnerabilidades sociais.

O impacto não é apenas estético. É estrutural. Quando a maxila é avançada e o perfil facial melhora, não é apenas o ANB que muda — é a forma como o paciente se relaciona com o mundo. A autoestima sobe. O sorriso, antes contido, se abre. O espelho deixa de ser inimigo.

E há outro efeito, menos visível mas igualmente importante: a expansão maxilar promovida pelo MAMP aumenta a largura da cavidade nasal. Estudos mostram que o MAMP produz maior aumento transversal nasal que o BAMP — um benefício que pode se traduzir em melhora do fluxo aéreo e da respiração.
O Lugar do MAMP na Sua Prática
O protocolo MAMP não é uma bala de prata. É uma ferramenta — poderosa, elegante, baseada em evidências — que ocupa um espaço específico no arsenal terapêutico do ortodontista:
- Pacientes em crescimento com Classe III esquelética por deficiência maxilar
- Dentição mista tardia ou permanente inicial
- Combinando deficiência transversal e sagital da maxila
- Quando a máscara facial já não é uma opção efetiva
- Quando se busca menor invasividade que o BAMP

A beleza do MAMP está em sua simplicidade biomecânica: dois mini-implantes, um expansor e elásticos. Uma engenharia mínima para um resultado máximo.
Convidando a Reflexão

Mostrar ao paciente o que está acontecendo com sua face — e como o tratamento vai transformá-la — é metade do caminho para o encantamento. Quando o paciente entende, ele confia. E quando confia, fecha o tratamento.
Se você quer descobrir como apresentar diagnósticos de Classe III e protocolos como o MAMP de forma visual, clara e envolvente, vale a pena conhecer o que a Visiortho está construindo. É um convite para pensar a comunicação clínica de um jeito novo. Acesse visiortho.com e veja com seus próprios olhos.
Afinal, a ciência só transforma vidas quando chega ao paciente. E ela chega mais rápido quando o paciente entende.
Referências
- Miranda F, Bastos JCC, Santos AM, Vieira LS, Aliaga-Del Castillo A, Janson G, Garib D. Miniscrew-anchored maxillary protraction in growing Class III patients. Journal of Orthodontics. 2020;47(2):170-180. DOI: 10.1177/1465312520910158.
- Kamel AM, Tarraf NE, Fouda AM, Hafez AM, El-Bialy A, Wilmes B. Dentofacial effects of miniscrew-anchored maxillary protraction on prepubertal children with maxillary deficiency: a randomized controlled trial. Progress in Orthodontics. 2023;24:22. DOI: 10.1186/s40510-023-00473-4.
- Miranda F, et al. Maxillary protraction anchored on miniplates versus miniscrews: three-dimensional dentoskeletal comparison. European Journal of Orthodontics. 2025;47(1):cjae071. DOI: 10.1093/ejo/cjae071.
- Miranda F, et al. Dentoskeletal comparison of miniscrew-anchored maxillary protraction with hybrid and conventional hyrax expanders: A randomized clinical trial. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics. 2021;161(6):e1-e13.
- Tristão SKPC, Magno MB, Pintor AVB, et al. Is there a relationship between malocclusion and bullying? A systematic review. Progress in Orthodontics. 2020;21:23. DOI: 10.1186/s40510-020-00323-7.
